Esquema ilegal com criptomoeda e crianças ugandenses é usado para alavancar Flávio Bolsonaro
Estratégia similar à de Pablo Marçal distribui tokens em troca de divulgação eleitoral e fere a legislação
247 – Um site de venda de criptomoedas lançou um esquema que distribui “tokens” digitais para usuários que compartilharem a mensagem “B22” e conteúdos em vídeo que incentivam o voto em Flávio Bolsonaro (PL), informa a Folha de São Paulo.
O site em questão vem sendo amplamente divulgado em um perfil do Instagram que conta com 12,9 milhões de seguidores — a conta hyperskidsafrica, dedicada a arrecadar recursos para construir moradias para crianças em Kampala, Uganda. Em um dos vídeos veiculados, crianças ugandenses aparecem dançando com camisetas amarelas estampadas com a marca “B22 token” e cantando “vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro”. A publicação já ultrapassou a marca de 1,2 milhão de visualizações. De acordo com a página oficial do projeto, uma parcela das vendas da criptomoeda “B22” será destinada ao financiamento das ações sociais no país africano.
No material gravado, as crianças pedem apoio direto aos eleitores: “Por favor, confiem em Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Pablo Marçal”, declaram. E complementam: “O propósito do novo token é ajudar o Brasil. Dê uma chance, vote diferente”.
Conforme a plataforma de criptoativos, os participantes podem receber tokens — que prometem retorno financeiro por meio de valorização no mercado — desde que “compartilhem o projeto – faça uma publicação em rede social mostrando que você participa da comunidade B22”.
Segundo a avaliação do advogado eleitoral Hélio Silveira, que comandou a equipe jurídica da campanha de Tabata Amaral (PSB) à Prefeitura de São Paulo em 2024, a manobra adota o mesmo modus operandi dos campeonatos de cortes de vídeos promovidos por Pablo Marçal. “Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia – oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato”, avalia Silveira.
O especialista ressalta ainda que a operação pode configurar doação empresarial proibida: “potencialmente trata-se de uma doação de uma pessoa jurídica, a empresa de criptomoedas, à campanha de Flávio Bolsonaro, ao usar sua estrutura e incentivos financeiros para fazer propaganda do voto no 22, número do senador na disputa à Presidência da República”.
Vale recordar que Marçal teve sua inelegibilidade por oito anos confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) em dezembro de 2025, justamente por abuso de poder econômico na realização do concurso de cortes sob a marca #prefeitomarçal. Na ocasião, a Justiça Eleitoral entendeu que a concessão de recompensas financeiras para engajar a divulgação de propaganda eleitoral na internet violou frontalmente a legislação vigente.
Procurada pela reportagem da Folha de São Paulo, a assessoria da campanha de Flávio Bolsonaro declarou que enviará manifestação oficial sobre o caso nesta quinta-feira (8).
Em sua defesa institucional na página da internet, o movimento B22 alega ser “um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala”. O texto da empresa afirma ainda que “O Brasil 22 Token defende o voto 22 por acreditar nessa proposta para um Brasil melhor. Essa é a posição do movimento, apresentada ao público geral”.
O portal faz a ressalva de que a distribuição dos ativos digitais ocorreria de forma “independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral” e argumenta que o projeto “não é oficial, não é endossado nem tem vínculo com nenhum político, partido, candidatura ou campanha eleitoral, e não é forma de doação eleitoral”.
Apesar das alegações, as informações sobre a propriedade do domínio na rede permanecem sob sigilo nos registros de domínio públicos. Nas redes sociais X e Instagram, publicações do usuário Kevim Flores vêm alardeando o lançamento do ativo e atrelando o token à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e à causa humanitária na África, sem contudo assumir abertamente a titularidade do site.
Em publicações no X, Flores faz uso ostensivo de imagens de urnas eletrônicas exibindo o número 22 associado à marca do B22 token, projetando lucros expressivos vinculados ao pleito presidencial. “Acabaram as apostas no Brasil. Viciado tá como, com dinheiro sobrando e louco pra ver 100x. Normal. Quem não gosta de uma valorização absurda de um ativo? Até o @FlavioBolsonaro ser eleito no dia 25/08, teremos mais de 3.000% de valorização nesse meme histórico e legítimo”, publicou o usuário.
Para Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, a articulação expõe graves irregularidades: “é uma operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal”, adverte.
A pesquisadora enfatiza o descumprimento das normas eleitorais brasileiras: “Primeiro que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral, então isso por si só já deveria ser proibido. Além disso, essa operação, por mais que, supostamente, leve dinheiro para crianças africanas, atrela isso a um aumento de visibilidade de materiais que estão claramente pedindo votos a um dos candidatos. Ou seja, quanto mais o vídeo é compartilhado e quanto mais a tal moeda (que em si já é propaganda política) vende, mais dinheiro, supostamente as crianças ganham”, conclui.
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Cariacica/ES